Bea Conta o Seu Segredo

 

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*Esta cena foi originalmente enviada em Outubro de 2015 para os assinantes da newsletter.*

*A cena pode conter spoilers e só deve ser lida por aqueles que já leram os 3 livros da Trilogia Ward*

Beatrice sabia que Sean era bom em esconder as coisas, ele sempre foi. Ou não teria passado todos esses anos escondendo de todo mundo o que ele fazia. E ainda escondia. E até pouco tempo escondia muito bem dela. Agora, no entanto, era quase impossível. Ela havia dito a ele que se tivessem tido um casamento normal, não teria sido possível esconder. E mesmo assim, ele ainda tentava. Não adiantava, ele não ia lhe dizer.

Não era num dia normal em que ele chegava em casa e contava o que o Rico tinha arrumado, quais os absurdos da reunião com o pessoal do marketing, qual a nova aquisição, o que iam ter que abafar, quais estratégias complicadas estavam estudando para garantir que subissem mais um por cento na bolsa, mesmo com a crise sabe-se lá onde.

Ela se divertia particularmente quando eram mais boatos de compra e venda de alguma empresa. “Quem os Ward vão falir hoje” e também “qual empresa será o jantar do semestre”. Bea tinha certeza que o pessoal do caderno de economia fazia bolão com isso. E algumas notinhas tinham que ser de sacanagem, porque todo mundo sabia que aquilo não ia acontecer.

Bem, isso era um dia normal na vida de Sean. Um dia calmo, aliás. Ela também se divertia muito com as conferencias “em família” das quais ele nem sempre podia fugir. E do momento da semana para discussão de planos econômicos com a tia-avó e as vezes sua tia, ex-presidente do GW. Mesmo que lá na Europa eles dessem outros nomes complicados aos cargos.

– Sean… – ela disse baixo.

Ele levantou a cabeça do seu ombro, onde a tinha descansado com parte do seu rosto sobre o colo dela e a olhou, cravando aqueles olhos turquesa em seu rosto. Como Bea não disse nada, ele achou que ela havia o chamado para que a liberasse de todo o seu peso e se moveu como se fosse se afastar, mas ela segurou seu braço e balançou a cabeça.

– Tudo bem? – ela perguntou.

Sean olhou para baixo, para o espaço entre eles e assentiu, mas ele não estava realmente olhando nada. Ele se moveu, separando seus corpos e a acariciou pela coxa, subindo pelo seu corpo até apoiar a mão no colchão.

– Viagem cansativa? – ela continuou.

– Não muito – ele disse baixo e elevou seu tronco, apoiando-se nos dois braços e a beijou bem mais delicadamente do que quando estavam fazendo amor agora pouco.

Bea o retribuiu, colocou as mãos no seu rosto, passou os dedos pela sua mandíbula e alcançou seu pescoço, o acariciando e deslizando até apertar seus ombros, sentindo os músculos tensos e retesados sob seus dedos. Sean continuou a beijando, mas deu impulso e se afastou.

– Você conseguiu parar lá em casa? – ela o acompanhou com o olhar quando ele se afastou da cama, dando a volta para ir ao banheiro.

– Sim, eu tinha uma consulta hoje. E uns papéis para assinar.

Essa foi a frase mais longa que ela arrancou dele que não envolvia Sean lhe perguntando como ela estava, se estava tudo bem, se tudo estava correndo bem com seu trabalho. Desde que chegou eram as primeiras informações que ele dava numa frase completa a respeito dele. E Beatrice estava muito mais interessada nisso. Até a parte em que eles terminaram na cama, ele não disse muita coisa. Mas perguntou várias.

Ela começou a fechar o seu vestido e se sentou na cama, mas parou quando ele terminou de pegar algo em sua mala de mão e foi para o banheiro. Eles estavam no mesmo quarto onde sempre ficavam quando iam a casa de praia. O mesmo daquele dia no aniversário de Candace e onde tinham tantas memórias guardadas. Agora eles já haviam vivido tantas outras coisas que aquela noite passada ali não era mais sua fantasia de conforto. De nenhum dos dois. No entanto, ainda era tudo bem recente. E aquela noite sempre seria doce e amarga ao mesmo tempo.

Sean não olhou para trás quando foi direto para o banheiro, ele estava com marcas estranhas nas costelas, ela não viu quando ele arrancou a camisa e a jogou na cama, estava ocupada demais naquela hora. As marcas corriam por um pedaço das costas e passavam pelas suas costelas e enquanto estava se movendo em cima dela, ele não parecia estar sentindo dor alguma. Mesmo com aquela tatuagem enorme que cobria suas costas, ela podia ver as marcas. E se a pele dele fosse mais clara, as marcas pareceriam bem mais feias.

E atrás do seu ombro, bem na parte onde era uma das nuvens carregadas que faziam parte da enorme tatuagem, estava um curativo simples, um quadrado de gaze preso com esparadrapos.

Logo depois, Beatrice escutou o som da água correndo no chuveiro.

– Você vem jantar, não é? – ela perguntou, enquanto lavava o rosto e ajeitava o cabelo.

– Claro – o som saiu abafado enquanto ele estava com a cabeça embaixo da água.

Beatrice entrou na outra porta, usou o banheiro e se ajeitou para não parecer que tinha acabado de sair de uma sessão de sexo de reencontro, por mais que Tess não fosse dar a mínima para isso. E Tibby tinha uma real fissura pelo tio, então quando ele chegava, ninguém mais existia. E independentemente do que havia acontecido no seu dia, quando ela corria e se jogava nos braços dele, Sean era só dela para tratarem de todos os assuntos importantes na mente de uma menina de cinco anos.

Ela desceu, ainda pensando sobre como ele havia voltado dessa vez e foi se juntar a Tess no primeiro andar.

– Cadê o seu namorado? – Bea perguntou a Tess.

– Ele não é meu namorado – ela disse, procurando Angelo por ali.

Como ele também não era expansivo e ainda não tinha intimidade nenhuma com Sean, Bea imaginou que se os deixasse sozinhos com Tibby, só escutaria a voz da garota. Sean havia prometido que ia se esforçar e queria ajudar na conexão da sobrinha com o pai, Angelo parecia ser um cara legal. Porém, hoje Bea duvidava que ele pudesse ajudar em alguma coisa. Sean mal estava abrindo a boca.

– Ao menos agora você sabe de quem eu estou falando. Se não é namorado é o que, parceiro? Noivo? Namorido? Alguma outra nomenclatura moderna ou vocês estão nessa de não dar títulos? Eu fiquei uns quatro meses saindo com seu irmão sem dar títulos. É ótimo para gente com problema para se comprometer.

– Você é horrível, sabia!

– Só porque eu falo a verdade.

– Você anda falando verdades demais agora que parou de fingir com o meu irmão.

– É só que não passávamos tanto tempo juntas – Bea se afastou dela e apertou as mãos. Ela não tinha certeza se haviam parado de fingir completamente. Ou talvez ela só estivesse tensa porque também tinha seus segredos.

Hartie entrou na sala, vindo da parte de trás da casa. Sim, ele ainda estava lá a trabalho, mas Hartie era assim. Tudo podia virar diversão.

– Acabei de vir da casa do bonitão, fechei tudo, acho que amanhã, se os caras da montagem não vacilarem de novo, terminamos a sala de jantar. Tranquei tudo – ele deixou a chave sobre o móvel do pequeno corredor que ligava a sala de jantar.

– E cadê ele? – perguntou Tess.

– Saiu ué – ele deu de ombros e olhou em volta, procurando algo para ajudar, como não tinha nada, foi lavar as mãos. – Fala patrão! – ele cumprimentou de lá quando viu Sean, sentado no degrau da escada junto com Tibby.

Ainda bem que Hartie ainda estava lá, ele ia voltar para a cidade, mas a montagem atrasou e ele ficaria por mais um dia. Eles teriam de voltar para Nova York para a semana, mas a decoração ia continuar e na quinta, estariam na praia outra vez. Estavam revezando com a reforma. Angelo queria a casa pronta, então assim que a reforma saía do cômodo – e ele contratara a empresa que trabalhava em conjunto com os projetos de Beatrice – a decoração entrava. Ia ficar tudo pronto de uma vez só.

Durante o jantar, Tibby falava com Hartie, seu novo amigo tagarela e ela obrigava Sean a concordar e opinar. E Bea ria deles e Tess tentava manter Tibby sob controle e comendo seu jantar. 

Algumas horas depois, Sean colocou Tibby para dormir e lhe prometeu que estaria ali no outro dia para irem nadar. Ela tinha acabado de completar cinco anos, mas sabia muito bem que o tio a colocava para dormir e ia embora. E antes, podia levar até um mês para voltar a vê-lo, mas agora ela estava o encontrando frequentemente. No entanto, ainda o fez prometer. Bem que dizem que crianças não esquecem.

Quando Bea finalmente saiu do banho e estava pronta para dormir, Sean já estava na cama e tinha até dormido, mas acordou quando ela entrou embaixo das cobertas.

– Por que você disse que sua viagem não foi cansativa? Você parece cansado.

– Está tão ruim assim? – ele sorriu levemente, mas deixou a cabeça descansada no travesseiro.

Ela se aproximou e passou os dedos pelo seu cabelo escuro, agora as ondas estavam completamente secas.

– Ao menos dessa vez seu rosto está intacto – ela não tocou no assunto das marcas e do curativo nas costas dele.

Dessa vez ele não sorriu, mas se inclinou e pressionou os lábios contra os seus, demorou assim por uns segundos e só então completou o beijo e voltou a se recostar contra o travesseiro. Sabe quando você conhece alguém e sabe interpretar os sinais daquela pessoa. Era fim de jogo por essa noite, então Bea sabia que precisava deixa-lo em paz para descansar. Se não estava falando antes, ele não ia começar agora.

Era muito romântico quando ele dizia que não tinha pesadelos quando dormia abraçado a ela. E era verdade na maior parte do tempo, mas nada no mundo é infalível. E ao menos eles não conseguiam ficar na mesma posição a noite inteira, pelo contrário.

Agora que estavam na segunda fase do casamento, como eles gostavam de chamar, estavam dormindo juntos quase todos os dias. Com exceção das viagens que os afastavam. E isso nunca tinha acontecido. Antes eles viviam uma relação de final de semana, depois o convívio durou pouco e era bem interrompido e era fácil mascarar a realidade para os dois lados. Sean escondia absolutamente tudo. Até que cessou. E agora estavam passando tempo demais juntos, do jeito que acontecia nos casamentos normais. E por isso estavam descobrindo alguns fantasmas.

Bea estava descobrindo um bando de detalhes. E quando ele a acordou sem querer, não foi a primeira vez. Ela abriu os olhos num susto, o mesmo que aconteceu com ele. E Sean estava deitado de costas para ela, Beatrice viu quando ele estremeceu, moveu a cabeça no travesseiro e continuou bem quieto. Ela sabia que se colocasse a mão nele agora, ele estaria frio, porque havia suado frio. E mesmo assim, não se moveu, na verdade, cruzou os braços a frente do peito e continuou bem quieto, mas com certeza acordado.

Das outras vezes, ela o observou e um tempo depois ele se virou, certa noite até levantou. E ela fingiu que estava dormindo. Só fingiu acordar no dia que ele levantou e saiu do quarto. E hoje, ela ia ficar bem ali. Mas como estava intrigada, ficou tentando ver o lugar onde tinha visto o curativo, agora não havia nada ali e era o ombro direito, se estivesse doendo, ele não estaria dormindo desse lado.

Beatrice se moveu na cama e Sean não fez nada, continuou ali e ela se aproximou e tocou o seu ombro, estava frio e mesmo com a pouca iluminação, quando ela o olhou, viu que ele tinha suado. Dava para ver pela raiz úmida do seu cabelo. Ela fingiu que não havia notado e só havia se aproximado para ficar perto dele. Bea ainda não sabia o que perguntar, como tocar no assunto. Como simplesmente lhe perguntar se ele teve um pesadelo. E se queria falar sobre isso.

Ela não conseguia saber se ele estava sonhando com memórias recentes, de coisas que viu em seus resgates ou se era pior. Se eram memórias antigas, que o atormentavam há anos, sobre a tortura que ele passou quando era mais jovem.

Dizem que os piores pesadelos são silenciosos. Ele não gritava, não se debatia, não falava dormindo, não se agarrava a ela. Sean nunca a acordou num susto porque esteve abraçado a ela e algo o fez pular. Ele suava frio e estremecia, sozinho. E ficava bem quieto, como se estivesse esperando passar. Demorava a dormir de novo.

O que eu faço com você? – ela pensou, encolhendo-se contra ele e perdendo o sono, sem conseguir imaginar o que se passava com ele. E como ajudá-lo. Talvez ele ficasse bem quieto, como uma criança assustada, esperando a dor passar. Mas ao menos as crianças mais sortudas podiam gritar e chamar os seus pais. E Beatrice não tinha dúvida, o que se passava com ele não tinha absolutamente nada a ver com os medos de uma criança.

– Não consegue dormir? – ele perguntou, quando se virou e viu que ela estava bem perto, mas se movia, sem encontrar uma boa posição.

Ela negou e se ajeitou embaixo do cobertor grosso.

– Quer eu aumente a temperatura? – Sean ficou de frente para ela.

– Eu gosto de frio… – ela chegou mais perto e se aconchegou ao corpo dele. – Não consegue dormir também?

– Acho que vou dar uma volta – ele olhou para longe, na direção das janelas, mesmo com as cortinas fechadas. O som do mar quebrando ali perto era leve. 

Beatrice se moveu, lembrando-o que estava procurando o calor do corpo dele.

– Você realmente vai levantar, sair debaixo das cobertas e ir andar lá fora? No vento gelado que vem do mar. Só para ver se o sono volta? – ela fez cara de sofrimento. – Às vezes você é ativo demais para eu acompanhar, Sean. Só levanto daqui se a casa estiver ardendo em fogo.

– Eu não quero impedir que você durma.

– Você mal se mexeu – ela balançou a cabeça e pausou, mas voltou a olhá-lo, dava para ver seu rosto na pouca iluminação do quarto. – O que te aconteceu, Sean? Não diz que não foi nada. Você não precisa falar sobre o que fez. Quando chegou de novo em casa, algo te aconteceu. Entre seus documentos, sua consulta e sua vinda até aqui.

Ele deixou seu corpo afundar novamente contra o colchão macio e os travesseiros.

– Eu acho melhor trocar aquele cara. Não estou me dando muito bem com o andamento. Eu sei, todos dizem isso quando querem evitar a terapia, mas eu só… vou testar outra coisa, ok?

– Você vai deixar o psicólogo? – Beatrice não soube o que pensar, lá estava algo que era novo para eles, Sean ir a sessões com um profissional.   

– Vou procurar outro.

– Ele foi ruim ou…

– Não – ele disse, antes que ela concluísse. – Eu só… Não realmente posso dizer as coisas a ele. Então cheguei lá e sentei e não disse quase nada e quando disse, não foi o que estava na minha mente.

– Você voltou de um problema no seu último trabalho – ela se referia ao trabalho alternativo que ele tinha. – E foi direto pra lá. Você podia ter vindo direto pra mim.

– Eu já faltei duas sessões. Como o fugitivo de médicos de cabeça que eu era aos dezesseis anos. E sou até hoje. E eu não posso só chegar pro cara e dizer a verdade. Eu não compro esse papo de ética. Não posso contar o que eu faço, não é só minha vida em jogo. Então eu falo de você. Falo umas mentiras sobre mim e um bando de verdades sobre você e eu. E na verdade, eu não quero falar nada disso pro cara. Eu não quero desconstruir nossa relação para ninguém. Nada contra, ele é bom. Só não está funcionando.

Ela estava piscando. Minha nossa, de meia frase para tudo isso que ele estava falando, eles tinham pulado uma enorme fase. Só que com Sean era assim, você teria dias de sorte em que coisas assim podiam acontecer gradativamente. Mas em geral, era de zero a cem em três segundos, mais rápido que seus carros.

E ele não tinha dito a ela que faltou. E ela não realmente se importava, ele só tinha que fazer o que lhe fazia bem.

– Tudo bem. Eu não me importo que fale sobre mim. Eu acho que sou uma grande parte da sua vida, então creio que seria estranho se você não falasse. Eu falo sobre você também, com poucas pessoas, mas falo.

Sean balançou a cabeça e se virou para olhá-la, Bea gostou disso, de poder olhar nos olhos dele e ver como realmente estava se sentindo, mas viu que aquele olhar turquesa ainda estava assombrado pelos seus sonhos e fantasmas.

– Você é minha vida inteira. Não é parte. É tudo. E ele não entende, ele não acha certo, não é psicologicamente saudável ao seu ver. E nós entramos numa fase de tratar a raiz do problema. E você não é droga de raiz de problema nenhum. É a minha solução.

Beatrice sabia que estava o olhando de forma confusa e surpresa e que sua boca estava aberta. Mas ela prensou os lábios, engoliu a saliva e colocou as mãos nele. Isso funcionava, tocá-lo sempre fazia diferença, para ambos. E Sean a tocou de volta e deixou a mão no seu pescoço enquanto a olhava.

– Ele acha que não tenho motivações próprias. E que preciso superar por mim, viver por mim, amar por mim, ter ambições egoístas. Porra, eu fiz isso há catorze anos. Na minha vida adulta, ele pode ser o primeiro, mas ao todo, deve ser o sexto psicólogo me dizendo isso.

– Eu realmente acho que você tem motivações, Sean. Você tem um bando delas.

– Agora eu tenho você – ele lembrou e sua expressão se suavizou, não chegou a ser um sorriso, mas foi perto. – E tenho o GW. É um mundo de pessoas e eu amo o que eu faço. Eu adoro acordar e planejar meu próximo passo lá e pensar em tudo que eu ainda posso fazer, em tudo que vou resolver. Eu ganho meu dia com um bom investimento. Eu saio para comemorar quando dá certo. Eu piro quando faço merda. Eu tenho ataques de humor de acordo com meus planos diários para uma multinacional que eu vou te dizer que comando. Mas é mentira, se eu parar para pensar nas milhares de pessoas que dependem de tudo que eu acerto ou erro lá, acho que aí sim vou precisar me tratar. Essa é minha vida. Eu adoro fazer isso. Viu a quantidade de “eus” que falei. Foi egocentrismo, do melhor jeito.

– Sabe, eu sempre adorei te ouvir falar do seu trabalho. Você conta com entusiasmo, tem um fogo nos seus olhos de pura excitação. Até mesmo quando ainda não nos conhecíamos bem e você mentia sobre o que realmente fazia.

– Bea, eu te amo – ele a segurou pelo pescoço e a beijou. – Mas eu não posso dizer a verdade a ele. Não posso dizer que eu gosto da dor e da vitória de tirar aquelas pessoas vivas do buraco onde as colocaram. E que eu não sinto um segundo de culpa pelas mortes que causei. Não pareceria uma dessas cenas de filmes de serial killers perturbados se eu sentasse lá e dissesse que quando paro de olhar para cotação da bolsa eu sou capaz de não errar um tiro no meio da testa de um sequestrador guardando um cativeiro? Um filho da puta que eu não vou olhar quando passar pelo corpo e depois sumir com os restos. Só vai faltar a Sharon Stone como cúmplice dos meus crimes – ele disse, num humor torcido, porque ele fazia isso como autodepreciação. – E da próxima vez que eu sentar lá, vou dizer a ele que em qualquer dia da semana, em qualquer horário, eu mataria qualquer um que chegasse perto de você. Porque eu nunca mais vou deixar algo te acontecer. E porque ele está a isso – ele levantou a mão e mostrou algo bem pequeno entre o dedo indicar e o polegar – de propor um tratamento mais agressivo. Eu não tomei os remédios quando meus pais podiam me obrigar, não vou começar agora.

– Mas você pode me dizer tudo isso.

– Claro…

– Eu sei que você odeia, mas ao invés de dizer pra ele, diz pra mim. Ele só quer saber se você pode seguir por sua conta a longo prazo.

– Eu quero outro, quero continuar tentando. Mas acho que vai dar no mesmo. Ele até me diz maneiras de me policiar. Porque ele ficou conhecido por esse tipo de tratamento – Sean soltou um som como se fosse uma leve risada. – Eu quero melhorar por você. Quero ser mais estável porque não posso passar minha vida te mergulhando em instabilidade. Eu preciso melhorar, me ajeitar, me entender, superar mais alguns traumas no caminho. Mas eu quero tudo isso por você. Quanto melhor eu fico pra mim, menos danificado eu fico pra você.

Bea sabia que ele ia continuar voltando ao passado. E que aquele trabalho dele sempre o faria voltar aos pontos da sua memória que deviam ficar trancados. A cada vez que ele perdesse ou resgatasse alguém, ele ia voltar ao passado. E ainda teria pesadelos e viveria esses momentos em que se recusava a deixá-la entrar nessa parte da sua mente. Sean agia como se deixá-la lidar com toda a feiura do seu passado e que fazia parte dele, pudesse machucá-la. E ela precisava fazê-lo parar com isso.

– Eu te amo assim, Sean. Eu não quero que você faça nada que te machuca. Eu te amo exatamente assim. Você é tudo que eu preciso. Você sabe, eu não vou negar nada que nos aconteceu, não vou dizer que você não é isso ou aquilo. O que importa é que você é tudo que eu quero e preciso. Pode me dizer tudo que precisa a qualquer momento. Pode deitar aqui ao meu lado todos os dias e me dizer o que quiser. Eu quero te escutar. Eu quero te abraçar quando você tiver outro pesadelo. E eu nem sei se posso, porque como eu saberia? Só… acaba comigo não saber.

– Você pode, é claro que você pode – ele passou o polegar pelo rosto dela, capturando a lágrima antes que ela descesse pelo seu rosto. – Você acha que eu não a abraçaria se você tivesse um pesadelo? Só soltaria se me batesse. 

– Você não é danificado – ela disse, incapaz de se conter. – Não do jeito que pensa. E eu me sinto segura quando você está aqui, isso não é algo que um parceiro instável proporcionaria.

Ele segurou seu rosto e a beijou, demorou acariciando seus lábios e repetiu várias vezes, puxando o ar, inalando seu cheiro e a beijando de novo.

– Eu vou tentar mais uma vez. Só que vou dizer no minuto que entrar que você é tudo que me importa e que vamos ter que trabalhar em volta disso. É assim ou fim de jogo. E aquele filho da puta recebe o suficiente para armar a estratégia em volta disso. Todo mundo sabe que você é o meu limite.

– Você consegue afrouxar isso?

– Por quê?

– Você tem mais espaço dentro dos seus limites e do seu coração para se importar mais?

– Bea… – ele franziu o cenho, olhando-a bem de perto. – Para você, eu sempre tenho.

Beatrice balançou a cabeça levemente e se soltou dele, deixando o corpo ir para trás.

– A gente vai precisar de mais espaço nos nossos limites – ela sorriu da expressão intrigada e preocupada que ele fazia. – Eu estou grávida, Sean. Você vai ter que incluir mais esse assunto e definitivamente abrir mais espaço para nós.

Ele ficou paralisado por um momento. Então se apoiou rapidamente no cotovelo e ficou olhando para ela, com certeza não havia escutado direito. Sabe aqueles momentos tão impactantes que se não ver direito você acha que também não escutou nada. Sean sentou e acendeu o abajur no mesmo segundo e se virou de novo para ela que estava achando a cara dele mais engraçada a cada segundo.

– Repete – ele disse.

– Você vai ter que arranjar mais espaço.

– Não, você sabe qual parte.

– Eu estou grávida.

– Puta merda! – ele exclamou.

– Essa não é exatamente a resposta para a questão.

– Cacete, Bea!

– Ainda não é essa, Sean.

– Puta que o pariu!

– Sean!

Ele estava chocado e por um momento seu olhar disse isso.

– Se você perguntar se eu estou falando sério, eu vou te socar – ela avisou.

Ele disse outro palavrão e completou com:

– Eu vou ser pai!

Ele se aproximou de novo e ficou olhando para ela com aqueles olhos que subitamente estavam enormes e seu olhar era maravilhado. Ela ficou sorrindo de volta e devia mesmo estar com crianças na cabeça, porque achava que no momento ele estava parecendo uma criança que ganhou um enorme presente surpresa e estava chocado e emocionado, sem conseguir conter sua excitação.

– Nós realmente vamos ser pais e… cacete! – ele a segurou pelos ombros e a beijou. Foi um beijo forte que esmagou seus lábios e fez barulho quando se separaram.

– Tudo bem? Acho que você está ofegante – ela disse a ele.

O coração dele estava a mil, batendo quase nas suas orelhas. E seus olhos, naturalmente entrecerrados, continuavam enormes pontos coloridos. Sean colocou a mão sobre a dela, mas a deixou deslizar, tocando sua barriga que ainda não demonstrava nenhum sinal de gravidez, mas isso não importava.

– Eu já disse que te amo, mas cacete… eu te amo pra caramba. E eu tenho todo o espaço do mundo pra você e para os nossos filhos. Você… vocês são meus limites, mas eles não existem para vocês.

– Eu também te amo, Sean.

Ele ficou com a mão sobre a barriga dela por um momento, mas então pulou de pé, cheio de energia.

– Posso contar pra Tess?

– Claro, mas ela não está dormindo? – ela perguntou, quando viu que ele pretendia contar agora.

– Não, está pintando!

– Como que você sabe… – ela nem chegou a completar, ele tinha saído rápido assim.

Poucos minutos depois, Tess entrou correndo no quarto, ainda usando um avental manchado.

– Eu vou ser tia! – ela exclamou e avançou rapidamente.

Bea achava que Sean voltaria sozinho e que a irmã estaria dormindo, então ficou sentada bem ali na cama. Não fez a menor diferença, Tess subiu na cama e se jogou, abraçando-a bem apertado.

– Não acredito que vou ser titia! – ela ficou sobre os joelhos e a olhou. – Bem a tempo da Tibby ser uma prima mais velha e protetora! Ela vai amar!

Tess esticou o braço para o irmão e quando ele chegou mais perto ela o puxou e Bea acabou espremida entre o abraço de Tess e Sean que para se apoiar acabou abrangendo ambas no seu abraço.

– Caramba, Bea! Parabéns! – ela a deixou respirar e apertou seus braços. – Parabéns, cabeção! Você vai ser pai! Que fantástico! – então virou para Sean que agora que tinha sido liberado do abraço apertado da irmã, estava de joelhos também. – Precisamos contar para mamãe que ela vai ser vovó de novo! – ela gargalhou. – Ela vai ficar doida! Vovó duas vezes! – E Tess riu ainda mais.

E agora Sean estava rindo junto com ela, porque sim, ia ser engraçado, eles precisavam mesmo contar para Candace e vê-la ficar pálida e quase cair sentada. Sim, porque um neto vindo de Sean, com certeza era capaz de tirar madame Ward de sua compostura. Ela ia precisar de lenços e tudo.

– Alguém mais sabe? – Sean perguntou a Bea.

– Sean – Bea franziu o cenho pra ele. – Você é o pai, acho que por essa colaboração valiosa você merecia saber a notícia com exclusividade, não é?

– Gostei disso – ele agarrou o celular e desbloqueou.

– Sean, são três e meia da manhã – lembrou Bea.

– Em Londres são oito e meia – ele olhava a tela.

– Por favor, contem pra minha mãe ao vivo e me chamem para ver! Por favor, por favor! – pedia Tess.

– Tudo bem, mas você vai ter que ir a cidade com a gente – concordou Bea.

– Ótimo! Já vou tirar minha mala! Aproveito para uma visita de dois dias a mamãe – Tess pulou da cama, mas antes de sair, virou e disse. – Mal posso esperar para ver meu sobrinho ou sobrinha! Minha nossa!  

Tess mal tinha passado pela porta e Sean já estava de fanfarra ao telefone.

– Sim, você escutou! Eu vou ser pai! – pausa – Não to bêbado, cacete! Nós vamos ter um filho! – outra pausa para escutar. – Não, eu acabei de saber. Sim, você é minha primeira ligação, seu idiota ciumento! – ele escutou por um tempo e depois tirou o celular do ouvido e olhou para Bea. – Jared disse que vai pegar um voo pra cá agora se ele não for…

– Ele vai ser o padrinho, não tem como ser outro – ela disse, já sabendo bem o que Jared ia pedir. Mas não havia outro, ele foi o padrinho de Sean no casamento. E ele que a levou para encontrar Sean lá na Suécia e foi o primeiro a descer atrás do primo naquele pico gelado. Eles passaram por tanta coisa juntos e os dois passavam por muito mais coisas que Bea não queria imaginar. Não havia outro padrinho para o primeiro bebê deles. Jared era o cara.

Sean voltou ao celular e sorriu para ela, mas desligou pouco depois e jogou o aparelho para o lado.

– Os outros podem saber depois do almoço, agora eu só quero te beijar – ele a abraçou e tombou na cama com ela, beijando-a imediatamente.

Bea se segurou nele e soltou um gemidinho de satisfação enquanto ele a beijava com tanta dedicação.

– E a Rose vai ser a madrinha – disse Bea.

– Fechado – respondeu Sean, segurando o rosto dela e a beijando de novo.

Ele estava a segurando quase em cima dele, mas a deixou deitar no colchão e ficou colado a ela, com o cotovelo apoiado na cama.

– Como você soube? – ele perguntou.

– Sinais, atraso… comprei oito testes de farmácia! – ela riu. – Aí fui correndo fazer exame de sangue, eu não queria dizer sem ter absoluta certeza. E eu dei sorte, se você estivesse em casa, ia notar meu desespero.

– Sabe quanto tempo?

– Quase dois meses.

– Minha nossa, Bea! – ele olhou para baixo, estava a acariciando e sua mão parou sobre o seu umbigo. – Já é uma… coisinha.

Ela riu dele.

– Sempre foi uma coisinha, Sean. Mas pensa pelo lado bom, faltam só sete meses.

Sean franziu o cenho e ficou olhando para onde estava sua mão, sobre a barriga dela, depois ele levantou o olhar para Bea.

– Eu não vou largar a terapia, prometo. Não, vou procurar outro. Alguém com especialidade em pais… sei lá. Problemáticos, deve ter alguém que lida com isso.

– Sean, não…

– É sério, eu vou continuar. Talvez eu…

– Você vai ser o melhor pai para o nosso bebe. O único que ele vai precisar, porque é o único que vai ama-lo como ele precisa.

– Eu não quero te decepcionar quando você vai precisar mais de mim do que nunca. E nem quando ele ou ela nascer e…

Ela o agarrou pelo rosto e o beijou.

– Você vai ser ótimo. Eu sei que você super queria um filho e que nunca falou sobre até eu querer um. E eu também sei que tudo que nós precisamos é de você. Só você – ela ficou com os dedos na mandíbula dele e o beijou devagar, Sean a abraçou e se ocupou apenas em retribuir até que ela parou e o olhou novamente. – Só promete que vai voltar. Todas as vezes, você vai voltar. Não importa se um pouco amassado ou com um curativo aqui e ali. Só o quero de volta. Todas as vezes.

– Eu prometo.

– E vai falar comigo. Diz pra mim que quando tiver um pesadelo, vai se virar e me abraçar. E que quando voltar do seu outro trabalho, mesmo que não queira me dizer tudo que aconteceu, vai me abraçar também. Eu te deixo ficar quanto tempo precisar. E nos próximos meses, você não vai estar só me abraçando.

Sean a abraçou ainda mais apertado, colando-a completamente a ele e a englobando entre seus braços, ele fechou os olhos e puxou o ar, inalando o seu cheiro e assentiu contra ela.

– Eu vou. Todas as vezes – ele disse.

Bea ficou sorrindo contra o pescoço dele. Passou uns três minutos e ele a liberou do abraço apenas o suficiente para que ela conseguir se apoiar nele e olhá-lo.

– Mas agora eu quero muito tirar a sua roupa. A minha também, mas aí nós vemos como vai ser – ele levantou as sobrancelhas rapidamente.

Ela inclinou a cabeça e gargalhou.


*Essa cena é parte do manuscrito em produção do livro da Tess Ward e pode passar por cortes e edições*

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Esta cena extra antecede o livro Ward3-CAPA300